A capela
Suas costas doíam terrivelmente, mas isso era incapaz de tirar o sorriso do seu rosto enquanto desvendava a obra perdida no escuro. O trabalho havia sido hercúleo, tomando sem a menor piedade cinco anos de sua vida, que o levaram da semi mendicância entre os retratos da elite do clero até o topo da hierarquia dos artistas, acima de qualquer pintor, escultor ou fotógrafo conhecido. Pietro esticou-se, satisfeito. Aquele trabalho lhe renderia a cadeira de Leonardo e o título de grão-mestre das artes e ofícios.
Naquela noite havia dispensado todos os ajudantes e curiosos para dar os toques finais no painel central pessoalmente. Seu coração havia estado afoito, suas mãos tremiam terrivelmente enquanto seus olhos tentavam se acostumar ao brilho inconstante das lâmpadas de Tesla. Enquanto pintava, Pietro pensou em como era grande o símbolo daquilo tudo e que meros duzentos anos atrás, ele teria sido vitimado e ridicularizado, talvez até mesmo morto pelos descrentes. Mas a verdadeira fé havia crescido e se fortalecido muito nos últimos 500 anos. Tivera seus mártires, fora vítima dos descrentes. Foi causa de guerras sem fim, heresias sem cabimento, mas resistiu através da argumentação pacífica, atravessando a maré de fé ilógica. Pietro pensou na capela negra que hoje se abria para os curiosos e poucos fieis que continuavam presos em uma era de insanidade quase mitológica, que depositavam todas as esperanças em seres intangíveis, tornando-se preguiçosos e dependentes.
Colocou a mão sobre o homem vitruviano que carregava no pescoço e pensou em Da Vinci. Pensou se ele teria coragem para fazer o que Leonardo fez se era digno aceitar o seu lugar. Pensou na imagem de Leonardo, diante dos incultos, falando sobre a vida, sobre a razão sobre a fé, sobre a capacidade do homem e sua supremacia sobre Deus. Pensou em sua morte na fogueira, o pavio acesso de uma era onde o homem seria o agente de todas as respostas.
Enquanto divagava, não ouviu os passos que haviam se aproximado lentamente. Quando a voz rouca do grão mestre falou, um arrepio gelado escapou da terra para percorrer seu corpo.
– É uma obra magnífica, Pietro.
Pietro de voltou para trás e encarou o rosto barbado do grão mestre sorrindo benevolente para ele. Encabulado, o pintor sorriu e balançou a cabeça, agradecendo.
– Foi um toque especial este último painel. Um pouco poético demais para um templo de ciências, mas eu agradeço a homenagem.
O pintor ficou na dúvida se aquilo era um elogio ou uma reprimenda, mas agradeceu da mesma forma.
– Grã Mestre, eu...
– Charles. Pode me chamar de Charles. Eu odeio esses títulos pomposos.
– Charles. Eu achei que cabia um pouco de imaginação para representar o fim do último bastião criacionista.
– Eu entendo, Pietro. Não me importo. Mas como evolucionistas, somos guiados pela razão, o mundo é mais simples sob nosso ponto de vista. Não acontece o mesmo com os criacionistas.
Pietro pensou um pouco sobre isso. Não tinha os criacionistas em mente quando idealizou seu painel e talvez aquilo tivesse sido um erro. Mas o que aquele punhado de crentes poderia fazer contra um mundo fundamentado na razão? Um simples debate esclarecido sobre a obra seria suficiente para que um ser humano estudado pudesse entender as suas razões. Charles provavelmente estava exagerando.
– Estou velho. Pietro. – Charles parecia adivinhar os pensamentos do pintor. – Fiz provavelmente a minha última grande contribuição a humanidade, com a origem das espécies. A supremacia da razão sobre todos os outros argumentos é uma batalha longa e cansativa. Estamos em paz, é verdade. Aprendemos a tolerância e a união, como um estudo lógico para o bem estar da humanidade. Conseguimos transcender o individualismos entendendo que o comunitário é a evolução do individual e colocando em números o valor de muitos contra o sofrimento de poucos. Estamos em paz. A humanidade prospera. Fomos a lua e exploramos os oceanos. Entendemos o nosso lugar no cosmos, acreditamos na nossa própria força. Desvendamos nossa mente e nosso corpo. – Seus olhos se levantaram encarando a obra de Pietro. – Desvendamos nosso passado e com isso ganhamos mais controle sobre o nosso futuro.
Pietro aguardou em silêncio, pensando na grandeza da humanidade e em tudo o que o homem fez para comprovar seu valor. Todas as suas conquistas, todos os seus sofrimentos. Sabia que pertencia a uma humanidade que era muito maior do que a dos seus ancestrais, adoradores de ídolos e da fé sem razão. E então concluiu que não importava, que a mente esclarecida não havia ofensa, apenas outra visão da verdade.
Charles colocou a mão no seu ombro e sorriu novamente.
– É uma obra magnífica!
Os dois olharam para o teto do Museu Natural e permaneceram em silêncio enquanto, acima da cabeça deles, uma fileira organizada de primatas caminhava com passos largos, a cada figura, estendendo-se e alterando-se em constituição e estatura, até seu último ascendente, um homem moderno, estendendo as mãos para a frente, tocando e reconhecendo aquele que era sua imagem e semelhança, outro homem igual a si.
Autor: Diego 'Diggs' Guerra"
TNTema: Primatas
07 Fevereiro 2011
02 Dezembro 2009
O Monstro de Martha
No canto do quarto, Martha chorava agarrada a finos trapos de chita e um desejo inclemente de paz.
Havia um torrão seco de noite preso no céu se recusando a ser varrido do horizonte. O mundo era de uma penumbra avermelhada e fria, de um silêncio imaterial, quebrado apenas pelo rosnado de um monstro.
O rosto de Martha sangrava, mas ela não percebia as gotas grossas que se acomodavam abaixo do seu queixo, nem a carne intumescida que distorcia seu rosto redondo. Do seu mundo não restava nada, exceto a chita em suas mãos, o ronco em seus ouvidos e a certeza de que Deus não olha em sua direção.
Houve uma suave dissonância no ronco do animal que fez Martha estremecer e retornar do mundo de lamentos onde seus pensamentos estiveram perdidos. A criatura se revirava entre lençóis, como se tramasse despertar de seus sonhos de carne fresca.
Um pé peludo se projetou para fora da cama, com unhas amareladas e distorcidas que pareciam tatear o mundo a sua procura.
Sem perceber, Martha se levantou, deixando no chão suas lágrimas, os restos do seu vestido e uma piscina de dor.
Em pé, pode ter uma visão completa do animal que emporcalhava sua cama. Grande e flácido, esparramado em um amontoado de pelos que quase ocultavam a pele morena e calejava pelo sol e só falhava no alto da cabeça, deixando a mostra um pedaço esticado e suado de couro avermelhado.
Martha engoliu um murmúrio baixo que era a manifestação do próprio desespero e esforçou-se para se desprender da parede, sem se submeter novamente aos caprichos da gravidade.
Olhou para a porta do outro lado do quarto e se preparou para sair. Mas para onde iria? Ao lado da porta, sobre uma mesinha, brilhou a resposta escrita na mais bonita prata.
Os passos de Martha não fizeram ruído, embora ela os imaginasse em resoluta marcha. Suas mãos estendiam-se a frente como se Martha tivesse dificuldades de tatear o mundo. Os dedos pequenos de menina repletos de sujeitas e temores.
Martha não apanhou a arma de uma vez. Ela demorou alguns minutos olhando e tateando o metal cromado, como se tivesse alguma dificuldade de desenhar a solução em seus pensamentos.
Quando finalmente ergueu o trinta e oito, o fez com grande dificuldade e nenhum jeito.
O monstro continuava na cama. Dormindo.
Uma surpresa maldosa abateu-se sobre Martha quando ela percebeu que não teria coragem. Uma nova onda de lágrimas convulsionou-a desesperadamente. A arma em sua mão oscilava pronta a disparar contra o mundo. Martha respirou pela boca rapidamente e olhou o objeto em sua mão, frio e insensível. Zombando de sua covardia. Prendeu a respiração e encostou a boca da arma embaixo do queixo. Chorou novamente. Pediu a Deus por coragem, mas Deus não perdoava os suicidas e não tinha motivo para encorajá-los. Engatilhou a arma lutando contra os próprios temores.
Na cama o monstro se remexeu. O corpo nu e coberto de pêlos se revelou de sob os lençóis. O rosto bestial parecia em perfeita paz. Tinha um nariz pequeno e um rosto enrugado pela idade. A boca era larga e se abriu mostrando dentes apodrecidos e esparsos pendurados em uma gengiva intumescida e babenta. Fosse o que fosse, Martha pensou, aquilo não era gente. Aquilo era o monstro de Martha. O demônio de seus pesadelos. Seu lobisomem.
Na mão, junto ao rosto, ele segurava um pedaço de chita rasgado de seu vestido.
Martha não soube se foi por isso. Um pequeno pedaço de si, que aquele homem segurava com tanto amor durante o sono, ou se fora a percepção de que Deus não seria capaz de criar algo tão imundo e chamá-lo de homem. Martha sentiu o ódio prestes a sufocá-la e segurou com as duas mãos a arma diante de si, lutando para não tremer. Era só puxar o gatilho e estaria livre. Só puxar o gatilho e seu pesadelo terminaria. Só puxar o gatilho e a fera estaria morta. Mas Martha, mesmo no auge de sua raiva, não podia matá-lo assim.
Sua boca se abriu em desespero, procurando preces, palavras, consolos. Coragem. Olhou novamente o lobisomem e chamou com a voz mais calma que encontrou.
–Pai?
Acertou três tiros em seu peito no instante em que ele abria os olhos.
Autor: Diego 'Diggs' Guerra
"Para Thalita"
TNTema: Lobisomem
Havia um torrão seco de noite preso no céu se recusando a ser varrido do horizonte. O mundo era de uma penumbra avermelhada e fria, de um silêncio imaterial, quebrado apenas pelo rosnado de um monstro.
O rosto de Martha sangrava, mas ela não percebia as gotas grossas que se acomodavam abaixo do seu queixo, nem a carne intumescida que distorcia seu rosto redondo. Do seu mundo não restava nada, exceto a chita em suas mãos, o ronco em seus ouvidos e a certeza de que Deus não olha em sua direção.
Houve uma suave dissonância no ronco do animal que fez Martha estremecer e retornar do mundo de lamentos onde seus pensamentos estiveram perdidos. A criatura se revirava entre lençóis, como se tramasse despertar de seus sonhos de carne fresca.
Um pé peludo se projetou para fora da cama, com unhas amareladas e distorcidas que pareciam tatear o mundo a sua procura.
Sem perceber, Martha se levantou, deixando no chão suas lágrimas, os restos do seu vestido e uma piscina de dor.
Em pé, pode ter uma visão completa do animal que emporcalhava sua cama. Grande e flácido, esparramado em um amontoado de pelos que quase ocultavam a pele morena e calejava pelo sol e só falhava no alto da cabeça, deixando a mostra um pedaço esticado e suado de couro avermelhado.
Martha engoliu um murmúrio baixo que era a manifestação do próprio desespero e esforçou-se para se desprender da parede, sem se submeter novamente aos caprichos da gravidade.
Olhou para a porta do outro lado do quarto e se preparou para sair. Mas para onde iria? Ao lado da porta, sobre uma mesinha, brilhou a resposta escrita na mais bonita prata.
Os passos de Martha não fizeram ruído, embora ela os imaginasse em resoluta marcha. Suas mãos estendiam-se a frente como se Martha tivesse dificuldades de tatear o mundo. Os dedos pequenos de menina repletos de sujeitas e temores.
Martha não apanhou a arma de uma vez. Ela demorou alguns minutos olhando e tateando o metal cromado, como se tivesse alguma dificuldade de desenhar a solução em seus pensamentos.
Quando finalmente ergueu o trinta e oito, o fez com grande dificuldade e nenhum jeito.
O monstro continuava na cama. Dormindo.
Uma surpresa maldosa abateu-se sobre Martha quando ela percebeu que não teria coragem. Uma nova onda de lágrimas convulsionou-a desesperadamente. A arma em sua mão oscilava pronta a disparar contra o mundo. Martha respirou pela boca rapidamente e olhou o objeto em sua mão, frio e insensível. Zombando de sua covardia. Prendeu a respiração e encostou a boca da arma embaixo do queixo. Chorou novamente. Pediu a Deus por coragem, mas Deus não perdoava os suicidas e não tinha motivo para encorajá-los. Engatilhou a arma lutando contra os próprios temores.
Na cama o monstro se remexeu. O corpo nu e coberto de pêlos se revelou de sob os lençóis. O rosto bestial parecia em perfeita paz. Tinha um nariz pequeno e um rosto enrugado pela idade. A boca era larga e se abriu mostrando dentes apodrecidos e esparsos pendurados em uma gengiva intumescida e babenta. Fosse o que fosse, Martha pensou, aquilo não era gente. Aquilo era o monstro de Martha. O demônio de seus pesadelos. Seu lobisomem.
Na mão, junto ao rosto, ele segurava um pedaço de chita rasgado de seu vestido.
Martha não soube se foi por isso. Um pequeno pedaço de si, que aquele homem segurava com tanto amor durante o sono, ou se fora a percepção de que Deus não seria capaz de criar algo tão imundo e chamá-lo de homem. Martha sentiu o ódio prestes a sufocá-la e segurou com as duas mãos a arma diante de si, lutando para não tremer. Era só puxar o gatilho e estaria livre. Só puxar o gatilho e seu pesadelo terminaria. Só puxar o gatilho e a fera estaria morta. Mas Martha, mesmo no auge de sua raiva, não podia matá-lo assim.
Sua boca se abriu em desespero, procurando preces, palavras, consolos. Coragem. Olhou novamente o lobisomem e chamou com a voz mais calma que encontrou.
–Pai?
Acertou três tiros em seu peito no instante em que ele abria os olhos.
Autor: Diego 'Diggs' Guerra
"Para Thalita"
TNTema: Lobisomem
07 Outubro 2008
O lado sombrio da Lua
......Doves ouviu a voz metálica de Rogue no capacete levemente descompassada com a projeção de seu rosto no visor do seu capacete. Rogue parecia muito velha, mas ele mesmo já não se sentia o jovem de antes. O traje espacial parecia pesado e ele se sentia insuportavelmente lento enquanto navegava para fora da nave.
– Não tem nada aqui, Rogue. – Tudo o que ele podia ver era o vazio sombrio do lado escuro da lua.
– Os sensores são claros para mim.– Roque repreendeu-o. – Você já deveria ter visto algo.
– Nada teria sobrevivido a isso. – Doves achava aquela missão uma perda de tempo. Não importava o que os sensores diziam. A única coisa viva a milhões de quilômetros era ele e Doves já se sentia um idiota.
– Seja o que for, parece bem pequeno. Talvez algum pedaço do laboratório tenha ficado intacto, protegendo alguma colônia de bactérias. – Roque não sabia o que esperar. Os sensores do centro espacial haviam enlouquecido depois do posicionamento de três novos satélites ao redor da lua. Ela tinha mais fé na falha do sistema do que em bactérias sobreviventes. A explosão da nave laboratório havia iluminado o lado escuro da lua com a sua força.
– Grande! Me arrancaram de casa por causa de uma colônia de bactérias... – A reclamação arrancou sorrisos de ambos. Doves vivia pelo trabalho e Rogue sabia disso. A ausência de uma vida pessoal só havia piorado depois da morte da sua filha.
– Doves! Oh Cristo! Eu havia esquecido! Bird estava nesse acidente, não é?
“Sou uma astronauta, papai!”
– É. – Era tarde demais para suspender a missão. Rogue amaldiçoou os idiotas que haviam escalado Doves para aquela tarefa, mas então se lembrou que Bird tinha o sobrenome da ex-mulher de Doves. “Quero fazer minha carreira sozinha! Não preciso de ajuda!” Doves havia se enfurecido com a filha por sua teimosia, mas Bird era assim. Tão teimosa e orgulhosa quanto o pai. Ele jamais precisou ajuda-la, somente os amigos mais próximos sabiam do parentesco.
E agora Bird estava morta.
– Cristo! – Doves gritou sem perceber que seus reflexos já haviam acionado o módulo espacial retirando-o do perigo. Um pedaço de fuselagem girou e passou ao seu lado, com uma tranqüilidade assassina que poderia tê-lo cortado ao meio.
– Doves? O que foi?
– Cristo!
– Doves?
– Estou bem, Rogue! Merda! Estou ficando velho pra isso!
– Destroços?
– É. Você pode ver pela câmera? Minha lanterna não ilumina quase nada aqui. Estou praticamente cego. Aquele pedaço de sucata veio do nada.
– Você deve estar muito perto agora, Doves. O que consegue ver?
– Merda, Rogue! Estou quase cego aqui! Tem pedaços do laboratório para todo lado.
– Vou te transferir as coordenadas, temos alguns pedaços maiores no mapa, mas você precisa tomar cuidado.
É claro que precisava tomar cuidado. Ele não era nenhum idiota. Até mesmo uma moeda girando no espaço poderia arrancar sua cabeça se estivesse a velocidade suficiente e Doves estava navegando em um mar de balas.
Não havia nada maior do que um fogão a vista. Apos a explosão do laboratório os pedaços maiores haviam caído na Lua. Alguns haviam sido arremessados para longe, no espaço profundo. ......O módulo de fuga dos cientistas havia ficado preso na carenagem, não houveram sobreviventes. Não haveria sobreviventes uma hora depois e não haviam sobreviventes nove meses depois. Estava ali arriscando sua vida por nada, exceto uma curiosidade mórbida.
......Doves olhava para tudo o que restava da nave-laboratório lunar. Ali estavam as paredes onde sua filha havia vivido por três meses antes de sua morte. Nem mesmo a frieza do metal retorcido brilhando diante de sua lanterna poderia apagar a humanidade da cena. Doves tentava se convencer de que não era nada, apenas metal e plástico. Mas haviam objetos pessoais navegando pelo vácuo, lembranças de família, fotos de desconhecidos, páginas de poesia semi-destruídas e dilaceradas por uma explosão que ninguém nunca explicou.
......Doves sentia-se como um invasor incorpóreo das memórias dos mortos e com muita dificuldade e o mais completo silêncio, ele atravessou o campo de destroços, subitamente vendo-se diante do mais obscuro dos vácuos.
– Ainda está ai, Rogue?
– Sim.
– Estou perdido?
– Não, essa é a direção correta.
......Mas não havia nada lá, exceto as certezas de satélites sem alma. Doves continuou impulsionando os foguetes do módulo e sentindo a cadeira pressionando suas costas como um suave incentivo para seguir adiante.
– Espere! Acho que vi alguma coisa!
– Não consigo te guiar daqui, Doves. Você deve estar quase em cima agora. Seus sinais estão confundindo o satélite.
– Tem algo brilhando...
– Mais destroços?
– Acho... que não. Esse brilho... pulsa!
– O que quer dizer?
– Espere um instante.
......Doves agora tinha uma direção e a usou como um farol marítimo. Os foguetes se apressaram através do espaço profundo e ele penou que seria engraçado se ficasse sem combustível para voltar a nave. Mas estava certo de que havia algo do lado de fora e não voltaria antes de saber o que era.
– Está vendo algo?
– Tem alguma coisa de brilho avermelhado como uma vela. Sei que parece ridículo, mas... é exatamente como parece.
– Não tem nada no monitor.
– Está lá! Estou vendo!
– Doves, você está indo depressa demais.
– Estou velho, Rogue. Só dá pra ir depressa na minha idade.
– Cuidado.
......Doves viu o brilho passar de uma pálida incerteza a um ponto inegável em seu visor. A medida em que este ponto crescia, cresciam também suas dúvidas. Algum dispositivo eletrônico com bateria solar? Algum isótopo radioativo? Estava a poucos metros de descobrir e o que via era semelhante a uma chama, uma névoa vermelha que oscilava ao sabor de ventos que jamais existiriam. Doves sentiu medo e não soube explicar a origem do seu medo. Desligou os foguetes para se aproximar com calma e por um instante quis olhar para a Terra, escondida atrás da Lua, bem atrás dele. Tudo o que podia ver com seu capacete era o vácuo a sua frente e a estranha luz que o desafiava.
......Era como uma nuvem de pequenos vaga-lumes avermelhados, pontinhos de luz que brilhavam em uma pulsação harmônica. Doves estendeu a mão em sua direção e viu que a luz fraca estava no ao redor destes pequenos pontos, como uma espécie de plasma reluzente.
– Parece...
– Sangue! – Doves completou a frase de Rogue, que acompanhava tudo através das câmeras. – Sangue quente!
– Isso é impossível, Doves!
– Eu sei, mas é o que parece!
– Apanhe uma amostra, apanhe o que puder, e saia logo daí!
– Certo.
Doves retirou um coletor da cadeira e tentou apanhar uma amostra, como borboletas em uma rede.
– Estão atravessando!
– Isso é im...
– Impossível, eu sei! Você diz muito isso. Vou tentar de mais perto.
......Doves se aproximou e estendeu a mão até a nuvem. Não devia tocar naquilo, sabia, mas era inevitável. Ele simplesmente era incapaz de evitar. Os dedos pareciam desajeitados dentro das grossas uvas, mas ele tentava ser delicado.
– Tire as mãos daí, Doves!
– Parece realmente quente!
– Deus do céu! Tire a mão daí, seu idiota!
......Mas Doves sentiu o calor aquecendo seus dedos e se espalhando pelo seu corpo como uma dose de álcool. A nuvem de plasma pareceu se modificar ao toque, girando em espiral como uma cadeia de DNA, pulsando forte ao mesmo ritmo da pulsação de Doves.
......O astronauta sentiu-se eufórico, como se experimentasse uma nova droga. Ondas de calor atravessavam seu corpo mais rápido a cada passagem.
– O que está acontecendo ai? Os sensores enlouqueceram!
– É tão bom! – Doves sentiu as lágrimas escorrendo pelo seu rosto.
– Doves! Seu coração!!! – Rogue vira os batimentos de Doves extrapolarem os limites saudáveis.
– Bird... – A voz de Doves se engasgava com as lágrimas. Rogue havia chutado a cadeira para longe e grudado o rosto nos monitores. Todo o centro espacial estava parado, ninguém sabia o que fazer. Rogue berrou para Doves mais uma vez, mas era tarde. Sua pulsação se tornou uma linha estridente no monitor. Sua voz se calou.
......A câmera do capacete continuou projetando imagens. Eles viram na se deslocar levemente, mostrando os pés de Doves, em seguida a cadeira-módulo espacial onde ele continuava preso por um umbilical. A câmera se entortou e desviou um pouco,mostrando a face sombria da lua. E mais alem, um brilho pálido e azul, do nascimento da Terra, em seu horizonte.
Autor: Diego Guerra
TnTema: Si-Fi
– Não tem nada aqui, Rogue. – Tudo o que ele podia ver era o vazio sombrio do lado escuro da lua.
– Os sensores são claros para mim.– Roque repreendeu-o. – Você já deveria ter visto algo.
– Nada teria sobrevivido a isso. – Doves achava aquela missão uma perda de tempo. Não importava o que os sensores diziam. A única coisa viva a milhões de quilômetros era ele e Doves já se sentia um idiota.
– Seja o que for, parece bem pequeno. Talvez algum pedaço do laboratório tenha ficado intacto, protegendo alguma colônia de bactérias. – Roque não sabia o que esperar. Os sensores do centro espacial haviam enlouquecido depois do posicionamento de três novos satélites ao redor da lua. Ela tinha mais fé na falha do sistema do que em bactérias sobreviventes. A explosão da nave laboratório havia iluminado o lado escuro da lua com a sua força.
– Grande! Me arrancaram de casa por causa de uma colônia de bactérias... – A reclamação arrancou sorrisos de ambos. Doves vivia pelo trabalho e Rogue sabia disso. A ausência de uma vida pessoal só havia piorado depois da morte da sua filha.
– Doves! Oh Cristo! Eu havia esquecido! Bird estava nesse acidente, não é?
“Sou uma astronauta, papai!”
– É. – Era tarde demais para suspender a missão. Rogue amaldiçoou os idiotas que haviam escalado Doves para aquela tarefa, mas então se lembrou que Bird tinha o sobrenome da ex-mulher de Doves. “Quero fazer minha carreira sozinha! Não preciso de ajuda!” Doves havia se enfurecido com a filha por sua teimosia, mas Bird era assim. Tão teimosa e orgulhosa quanto o pai. Ele jamais precisou ajuda-la, somente os amigos mais próximos sabiam do parentesco.
E agora Bird estava morta.
– Cristo! – Doves gritou sem perceber que seus reflexos já haviam acionado o módulo espacial retirando-o do perigo. Um pedaço de fuselagem girou e passou ao seu lado, com uma tranqüilidade assassina que poderia tê-lo cortado ao meio.
– Doves? O que foi?
– Cristo!
– Doves?
– Estou bem, Rogue! Merda! Estou ficando velho pra isso!
– Destroços?
– É. Você pode ver pela câmera? Minha lanterna não ilumina quase nada aqui. Estou praticamente cego. Aquele pedaço de sucata veio do nada.
– Você deve estar muito perto agora, Doves. O que consegue ver?
– Merda, Rogue! Estou quase cego aqui! Tem pedaços do laboratório para todo lado.
– Vou te transferir as coordenadas, temos alguns pedaços maiores no mapa, mas você precisa tomar cuidado.
É claro que precisava tomar cuidado. Ele não era nenhum idiota. Até mesmo uma moeda girando no espaço poderia arrancar sua cabeça se estivesse a velocidade suficiente e Doves estava navegando em um mar de balas.
Não havia nada maior do que um fogão a vista. Apos a explosão do laboratório os pedaços maiores haviam caído na Lua. Alguns haviam sido arremessados para longe, no espaço profundo. ......O módulo de fuga dos cientistas havia ficado preso na carenagem, não houveram sobreviventes. Não haveria sobreviventes uma hora depois e não haviam sobreviventes nove meses depois. Estava ali arriscando sua vida por nada, exceto uma curiosidade mórbida.
......Doves olhava para tudo o que restava da nave-laboratório lunar. Ali estavam as paredes onde sua filha havia vivido por três meses antes de sua morte. Nem mesmo a frieza do metal retorcido brilhando diante de sua lanterna poderia apagar a humanidade da cena. Doves tentava se convencer de que não era nada, apenas metal e plástico. Mas haviam objetos pessoais navegando pelo vácuo, lembranças de família, fotos de desconhecidos, páginas de poesia semi-destruídas e dilaceradas por uma explosão que ninguém nunca explicou.
......Doves sentia-se como um invasor incorpóreo das memórias dos mortos e com muita dificuldade e o mais completo silêncio, ele atravessou o campo de destroços, subitamente vendo-se diante do mais obscuro dos vácuos.
– Ainda está ai, Rogue?
– Sim.
– Estou perdido?
– Não, essa é a direção correta.
......Mas não havia nada lá, exceto as certezas de satélites sem alma. Doves continuou impulsionando os foguetes do módulo e sentindo a cadeira pressionando suas costas como um suave incentivo para seguir adiante.
– Espere! Acho que vi alguma coisa!
– Não consigo te guiar daqui, Doves. Você deve estar quase em cima agora. Seus sinais estão confundindo o satélite.
– Tem algo brilhando...
– Mais destroços?
– Acho... que não. Esse brilho... pulsa!
– O que quer dizer?
– Espere um instante.
......Doves agora tinha uma direção e a usou como um farol marítimo. Os foguetes se apressaram através do espaço profundo e ele penou que seria engraçado se ficasse sem combustível para voltar a nave. Mas estava certo de que havia algo do lado de fora e não voltaria antes de saber o que era.
– Está vendo algo?
– Tem alguma coisa de brilho avermelhado como uma vela. Sei que parece ridículo, mas... é exatamente como parece.
– Não tem nada no monitor.
– Está lá! Estou vendo!
– Doves, você está indo depressa demais.
– Estou velho, Rogue. Só dá pra ir depressa na minha idade.
– Cuidado.
......Doves viu o brilho passar de uma pálida incerteza a um ponto inegável em seu visor. A medida em que este ponto crescia, cresciam também suas dúvidas. Algum dispositivo eletrônico com bateria solar? Algum isótopo radioativo? Estava a poucos metros de descobrir e o que via era semelhante a uma chama, uma névoa vermelha que oscilava ao sabor de ventos que jamais existiriam. Doves sentiu medo e não soube explicar a origem do seu medo. Desligou os foguetes para se aproximar com calma e por um instante quis olhar para a Terra, escondida atrás da Lua, bem atrás dele. Tudo o que podia ver com seu capacete era o vácuo a sua frente e a estranha luz que o desafiava.
......Era como uma nuvem de pequenos vaga-lumes avermelhados, pontinhos de luz que brilhavam em uma pulsação harmônica. Doves estendeu a mão em sua direção e viu que a luz fraca estava no ao redor destes pequenos pontos, como uma espécie de plasma reluzente.
– Parece...
– Sangue! – Doves completou a frase de Rogue, que acompanhava tudo através das câmeras. – Sangue quente!
– Isso é impossível, Doves!
– Eu sei, mas é o que parece!
– Apanhe uma amostra, apanhe o que puder, e saia logo daí!
– Certo.
Doves retirou um coletor da cadeira e tentou apanhar uma amostra, como borboletas em uma rede.
– Estão atravessando!
– Isso é im...
– Impossível, eu sei! Você diz muito isso. Vou tentar de mais perto.
......Doves se aproximou e estendeu a mão até a nuvem. Não devia tocar naquilo, sabia, mas era inevitável. Ele simplesmente era incapaz de evitar. Os dedos pareciam desajeitados dentro das grossas uvas, mas ele tentava ser delicado.
– Tire as mãos daí, Doves!
– Parece realmente quente!
– Deus do céu! Tire a mão daí, seu idiota!
......Mas Doves sentiu o calor aquecendo seus dedos e se espalhando pelo seu corpo como uma dose de álcool. A nuvem de plasma pareceu se modificar ao toque, girando em espiral como uma cadeia de DNA, pulsando forte ao mesmo ritmo da pulsação de Doves.
......O astronauta sentiu-se eufórico, como se experimentasse uma nova droga. Ondas de calor atravessavam seu corpo mais rápido a cada passagem.
– O que está acontecendo ai? Os sensores enlouqueceram!
– É tão bom! – Doves sentiu as lágrimas escorrendo pelo seu rosto.
– Doves! Seu coração!!! – Rogue vira os batimentos de Doves extrapolarem os limites saudáveis.
– Bird... – A voz de Doves se engasgava com as lágrimas. Rogue havia chutado a cadeira para longe e grudado o rosto nos monitores. Todo o centro espacial estava parado, ninguém sabia o que fazer. Rogue berrou para Doves mais uma vez, mas era tarde. Sua pulsação se tornou uma linha estridente no monitor. Sua voz se calou.
......A câmera do capacete continuou projetando imagens. Eles viram na se deslocar levemente, mostrando os pés de Doves, em seguida a cadeira-módulo espacial onde ele continuava preso por um umbilical. A câmera se entortou e desviou um pouco,mostrando a face sombria da lua. E mais alem, um brilho pálido e azul, do nascimento da Terra, em seu horizonte.
Autor: Diego Guerra
TnTema: Si-Fi
Salto Cego
.....Ele podia ouvir os aplausos vindos da grande tenta fazendo tudo ao seu redor estremecer. Lucas ouvia as gargalhadas, ritmadas como um coro para a fanfarra da banda; podia imaginar a trapezista na corda bamba a segundos do salto mortal. O furar de tambores enquanto o público, agora em silêncio, torcia para que tudo desse certo. Os tambores gaguejando e tremulando. A trapezista no ar, nada entre ela e a morte, um salto cego que se sustenta na esperança de que havia feito os cálculos corretamente. As mulheres tampam os olhos, os homens disfarçam o próprio temor. Todos tomam ar, incluindo os tambores que silenciam.
.....Lucas ficou na pontinha do pé, como se fossem suas as mãos que tentavam alcançar o trapézio. As orelhas esticadas na janela, o coração toa mudo quanto tudo o mais; e de repente uma ovação alucinada inundando o mundo e garantindo a Lucas que tudo estava bem.
.....Seu pai entrou em casa. Lucas correu para a cama ao mesmo tempo em que a multidão voltava ao silêncio. Os pés agüeis pularam sobre o colchão e houve nova ovação da platéia. Ficou em silêncio, olhos fechados, tentava controlar a respiração. Os passos de seu pai dançavam pelo corredor esbarrando na cômoda ao lado da porta do banheiro. Seu pai xingou baixinho, pelo barulho inconveniente. Riu. Seguiu em frente. Parou trocando os pés perto de sua porta e testou a maçaneta, fazendo as dobradiças rangerem para frente e para trás. Lucas sentiu o cheiro do álcool vindo da porta. Não gostava quando o pai bebia, apesar de achar engraçado seu jeito desastrado. A porta do quarto fechou e os passos se perderam pelo corredor.
.....Lucas ouviu outra porta se abrindo, os passos lentos de seu pai tentando não fazer barulho. O taco solto no chão do quarto de sua mãe. UM “Sshh” beirando o riso, do seu pai. O colchão de mola rangendo enquanto dois golpes ocos batiam no chão, toc, toc.
Seu pai respirou fundo.
– Ele ficou te esperando a noite toda. – Sua mãe não parecia sonolenta. A voz era direta, com palavras que haviam sido planejadas durante horas, em silêncio, esperando a chance de ganhar o mundo.
– Tive um happy hour com o pessoal do escritório. Não deu pra sair antes.
– Você prometeu leva-lo ao circo.
– Levo amanhã.
– Ele esperou a semana toda para ver os trapezistas.
– Disse que levo amanhã, Marta!
Sua mãe ficou quieta. Fazia tanto silêncio quanto o segundo imediato ao trapezista alcançar a segurança. O colchão de mola fez barulho, houve um click do abajur sendo aceso.
Seu pai suspirou novamente.
– Você prometeu!
– Ele é cego, não perdeu nada!
Sua mãe engoliu um soluço, os minutos tornaram-se longos e ele ouviu a platéia aplaudindo, o vento soprava os sonos para longe, como se apagasse um sonho. Seu pai gaguejou qualquer coisa e ele ouviu um estalo alto seguido de um gemido. Pés descalços se afastaram do quarto, seu pai chamou sua mãe carinhosamente. A porta do seu quarto se abriu e se fechou rapidamente. Ele sentiu o perfume do creme de sua mãe e a cama estremecendo enquanto ela se deitava ao seu lado. Marta o abraçou com força. Lucas fingiu dormir. Lucas percebeu algo quente pingando sobre seu rosto.
– Tudo bem, amor. – Sua mãe sussurrou entre soluços. – Amanhã nós vamos ao circo.
Naquela noite Lucas sonhou com o trapézio, uma onda de gritos e uma maré de palmas.
Autor: Diego Guerra
TnTema: Circo
.....Lucas ficou na pontinha do pé, como se fossem suas as mãos que tentavam alcançar o trapézio. As orelhas esticadas na janela, o coração toa mudo quanto tudo o mais; e de repente uma ovação alucinada inundando o mundo e garantindo a Lucas que tudo estava bem.
.....Seu pai entrou em casa. Lucas correu para a cama ao mesmo tempo em que a multidão voltava ao silêncio. Os pés agüeis pularam sobre o colchão e houve nova ovação da platéia. Ficou em silêncio, olhos fechados, tentava controlar a respiração. Os passos de seu pai dançavam pelo corredor esbarrando na cômoda ao lado da porta do banheiro. Seu pai xingou baixinho, pelo barulho inconveniente. Riu. Seguiu em frente. Parou trocando os pés perto de sua porta e testou a maçaneta, fazendo as dobradiças rangerem para frente e para trás. Lucas sentiu o cheiro do álcool vindo da porta. Não gostava quando o pai bebia, apesar de achar engraçado seu jeito desastrado. A porta do quarto fechou e os passos se perderam pelo corredor.
.....Lucas ouviu outra porta se abrindo, os passos lentos de seu pai tentando não fazer barulho. O taco solto no chão do quarto de sua mãe. UM “Sshh” beirando o riso, do seu pai. O colchão de mola rangendo enquanto dois golpes ocos batiam no chão, toc, toc.
Seu pai respirou fundo.
– Ele ficou te esperando a noite toda. – Sua mãe não parecia sonolenta. A voz era direta, com palavras que haviam sido planejadas durante horas, em silêncio, esperando a chance de ganhar o mundo.
– Tive um happy hour com o pessoal do escritório. Não deu pra sair antes.
– Você prometeu leva-lo ao circo.
– Levo amanhã.
– Ele esperou a semana toda para ver os trapezistas.
– Disse que levo amanhã, Marta!
Sua mãe ficou quieta. Fazia tanto silêncio quanto o segundo imediato ao trapezista alcançar a segurança. O colchão de mola fez barulho, houve um click do abajur sendo aceso.
Seu pai suspirou novamente.
– Você prometeu!
– Ele é cego, não perdeu nada!
Sua mãe engoliu um soluço, os minutos tornaram-se longos e ele ouviu a platéia aplaudindo, o vento soprava os sonos para longe, como se apagasse um sonho. Seu pai gaguejou qualquer coisa e ele ouviu um estalo alto seguido de um gemido. Pés descalços se afastaram do quarto, seu pai chamou sua mãe carinhosamente. A porta do seu quarto se abriu e se fechou rapidamente. Ele sentiu o perfume do creme de sua mãe e a cama estremecendo enquanto ela se deitava ao seu lado. Marta o abraçou com força. Lucas fingiu dormir. Lucas percebeu algo quente pingando sobre seu rosto.
– Tudo bem, amor. – Sua mãe sussurrou entre soluços. – Amanhã nós vamos ao circo.
Naquela noite Lucas sonhou com o trapézio, uma onda de gritos e uma maré de palmas.
Autor: Diego Guerra
TnTema: Circo
Nem carne, nem sangue.
......A eletricidade corria seu corpo como um zumbido gelado e constante. As juntas de polipropileno rangiam ao som do titânio em seu esqueleto, mas ele apenas forçava mais, seguindo o modelo simulado incrustado em seu processador multicore.
– Como corre! – Samantha protegia os olhos fazendo sombra com os dedos acima dos olhos. Era um dia claro de Abril e havia uma brisa gelada soprando no campo de testes.
– É essa a idéia! – Chang tomava notas em sua caderneta de papel, para o horror de Samantha.
– Nunca vou entender. – Ela viu o corredor deslizar para a direita e continuar seu trajeto imutável.
– O quê? – O monitor acusava calor excessivo entre as juntas do tornozelo esquerdo. Chang anotou a variação mas não achou o problema significativo.
– Você é o maior engenheiro mecatrônico do país! – Samantha pareceu embaraçada enquanto procurava as palavras; tinha muito orgulho do novo amigo.
– E isso é motivo de surpresa? – Sorriu Chang.– Bobo! O que eu não entendo é porquê você ainda escreve em papel ao invés de comprar um HC como todo mundo.
– Gosto de coisas antigas. – Chang recurvou-se pela murada. Pensou ter visto um espasmo na perna do corredor, mas não estava completamente certo sobre isso.
......Samantha não entendia e provavelmente não entenderia nunca. Havia lido em algum lugar que Chang, sozinho, havia avançado a ciência em pelo menos 50 anos, mas o engenheiro acumulava hábitos que haviam sido esquecidos a décadas.
– Ali! Chang apontou a caneta tinteiro para o corredor e franziu as sobrancelhas para Samantha.
– Você viu?Samantha levantou os ombros e sacudiu a cabeça obviamente aturdida. Sua mãe lhe ligaria naquela noite e lhe perguntaria como havia sido.
– Pode parar Mathias. – Chang fez um sinal para o corredor e anotou o defeito apressadamente em seu caderninho.
– Seu irmão tem um pequeno aquecimento no tornozelo, a primeira vista não parecia nada grave, mas o calor em excesso está, muito provavelmente, afetando o desempenho da placa de controle de passos. Nada grave, ele ficará pronto antes dos jogos.
– Ah! – Samantha não queria demonstrar sua decepção, mas a verdade é que não havia pensado em se afastar de Chang tão cedo. Queria mais tempo.
– O que foi? Algo errado? – Chang virou-se para Samantha e rapidamente voltou-se novamente para o caderninho, esboçando um pequeno projeto do que poderia ser uma melhoria naquele modelo de perna. Quando o projetara imaginava-o ideal para longas caminhadas.
......Era surpreendente que ela desenvolvesse velocidade o suficiente para uma corrida como aquela. Iria sugerir alguns ajustes mais tarde, na oficina.
– Queria saber se você não quer assistir um filme, ou coisa assim.A mão de Chang tremeu o suficiente para estragar o pequeno desenho. Ele voltou-se para Samantha pronto a protestar, mas deteve-se diante do seu olhar. Ela o examinava, constrangida.
– É claro. – Sorriu. – Tem um cinema antigo com projetor de 16mm que eu queria mesmo conhecer.
– Adoro filmes antigos. – Samantha deu dois pulinhos radiantes, fazendo um barulho peculiar sobre o assoalho de madeira.Chang sorriu. Sorriu pos ela era muito jovem e ele era velho. Sorriu porquê ela usava peças que ele havia desenvolvidos a anos. Sorriu porquê era a coisa certa a fazer. Samantha passou o braço pelo dele e foram juntos encontrar seu irmão.
– Que filme veremos? – Uma nuvem ocultava o sol enquanto dois jatos cruzavam o céu, deixando rastros de fumaça atrás de si.
– Um filme bobo, sobre seres humanos. – Chang não pareceu muito certo sobre isso, mas Samantha não se importava.
–Espero que seja um romance. Adoro os romances humanos. – Samantha tocou o polipropileno do braço de Chang e imaginou a estática se acumulando entre eles.
– Como eram os humanos Chang?
......O engenheiro soltou uma risada divertida e repreendeu Samantha com um olhar de soslaio.
– Não sou tão velho assim! – Samantha sabia que não. Ninguém no mundo podia ser tão velho assim.
Autor: Diego Guerra
TnTema: Robôs
– Como corre! – Samantha protegia os olhos fazendo sombra com os dedos acima dos olhos. Era um dia claro de Abril e havia uma brisa gelada soprando no campo de testes.
– É essa a idéia! – Chang tomava notas em sua caderneta de papel, para o horror de Samantha.
– Nunca vou entender. – Ela viu o corredor deslizar para a direita e continuar seu trajeto imutável.
– O quê? – O monitor acusava calor excessivo entre as juntas do tornozelo esquerdo. Chang anotou a variação mas não achou o problema significativo.
– Você é o maior engenheiro mecatrônico do país! – Samantha pareceu embaraçada enquanto procurava as palavras; tinha muito orgulho do novo amigo.
– E isso é motivo de surpresa? – Sorriu Chang.– Bobo! O que eu não entendo é porquê você ainda escreve em papel ao invés de comprar um HC como todo mundo.
– Gosto de coisas antigas. – Chang recurvou-se pela murada. Pensou ter visto um espasmo na perna do corredor, mas não estava completamente certo sobre isso.
......Samantha não entendia e provavelmente não entenderia nunca. Havia lido em algum lugar que Chang, sozinho, havia avançado a ciência em pelo menos 50 anos, mas o engenheiro acumulava hábitos que haviam sido esquecidos a décadas.
– Ali! Chang apontou a caneta tinteiro para o corredor e franziu as sobrancelhas para Samantha.
– Você viu?Samantha levantou os ombros e sacudiu a cabeça obviamente aturdida. Sua mãe lhe ligaria naquela noite e lhe perguntaria como havia sido.
– Pode parar Mathias. – Chang fez um sinal para o corredor e anotou o defeito apressadamente em seu caderninho.
– Seu irmão tem um pequeno aquecimento no tornozelo, a primeira vista não parecia nada grave, mas o calor em excesso está, muito provavelmente, afetando o desempenho da placa de controle de passos. Nada grave, ele ficará pronto antes dos jogos.
– Ah! – Samantha não queria demonstrar sua decepção, mas a verdade é que não havia pensado em se afastar de Chang tão cedo. Queria mais tempo.
– O que foi? Algo errado? – Chang virou-se para Samantha e rapidamente voltou-se novamente para o caderninho, esboçando um pequeno projeto do que poderia ser uma melhoria naquele modelo de perna. Quando o projetara imaginava-o ideal para longas caminhadas.
......Era surpreendente que ela desenvolvesse velocidade o suficiente para uma corrida como aquela. Iria sugerir alguns ajustes mais tarde, na oficina.
– Queria saber se você não quer assistir um filme, ou coisa assim.A mão de Chang tremeu o suficiente para estragar o pequeno desenho. Ele voltou-se para Samantha pronto a protestar, mas deteve-se diante do seu olhar. Ela o examinava, constrangida.
– É claro. – Sorriu. – Tem um cinema antigo com projetor de 16mm que eu queria mesmo conhecer.
– Adoro filmes antigos. – Samantha deu dois pulinhos radiantes, fazendo um barulho peculiar sobre o assoalho de madeira.Chang sorriu. Sorriu pos ela era muito jovem e ele era velho. Sorriu porquê ela usava peças que ele havia desenvolvidos a anos. Sorriu porquê era a coisa certa a fazer. Samantha passou o braço pelo dele e foram juntos encontrar seu irmão.
– Que filme veremos? – Uma nuvem ocultava o sol enquanto dois jatos cruzavam o céu, deixando rastros de fumaça atrás de si.
– Um filme bobo, sobre seres humanos. – Chang não pareceu muito certo sobre isso, mas Samantha não se importava.
–Espero que seja um romance. Adoro os romances humanos. – Samantha tocou o polipropileno do braço de Chang e imaginou a estática se acumulando entre eles.
– Como eram os humanos Chang?
......O engenheiro soltou uma risada divertida e repreendeu Samantha com um olhar de soslaio.
– Não sou tão velho assim! – Samantha sabia que não. Ninguém no mundo podia ser tão velho assim.
Autor: Diego Guerra
TnTema: Robôs
Não morra com a cara na merda
......Sempre soube que esse momento chegaria. Ouço o vento pelas ruas como uma tênue música de ninar tentando me arrastar para o mundo dos sonhos. O suor arde em meus olhos, mas eu não pisco. Não posso piscar. Tento imaginar que continuo na fazenda, atirando em latas. Mas latas não atiram de volta. Latas não gritam de dor. Latas não tem família para chorar sua morte. Meus dedos estremecem um pouco e fico imaginando se terei coragem. Talvez eu devesse apenas esperar pelo impacto da bala. É tão mais fácil morrer... não é preciso mover um dedo, não é preciso pensar em nada. Basta o tempo de uma prece... as vezes nem isso. Seu corpo golpeia o chão, levantando pó enquanto sua alma escapa do mundo e de repente tudo o mais deixa de existir.
......Tudo cheira a bosta. Por um momento eu penso que a profecia de meu pai irá se realizar e eu vou morrer na merda. O sorriso se insinua pelos meus lábios sem que eu tenha forças para detê-lo. Uma mulher engole em seco enquanto se esconde atrás de cortinas. Cortinas seguram balas tanto quanto janelas seguram seus olhares. Eu vejo um sorriso em seus lábios e imagino como a minha vida poderia ter sido diferente. Bem, talvez não muito.
......Arrependo-me da distração tarde de mais. Ouço a arma engatilhada parte de segundos antes de ouvir um disparo. Uma bala já está no ar, outra logo segue seu caminho. Sinto algo queimando em minha mão e só ao olhar para baixo percebo que eu já disparei, mas não rápido o suficiente. Algo me acerta na barriga como um murro e eu perco a força das pernas. A voz de meu pai volta a trovejar sobre meu destino no esterco e eu arrumo coragem para não cair ainda. Alguma coisa assobia na minha orelha e eu imagino os índios, falando com o vento. Meu dedo aperta o gatilho novamente, três vezes antes de eu conseguir me lembrar do que estava acontecendo. O chão se levanta em explosões de poeira e fragmentos de pedra. O sino da igreja toca uma encomenda pela minha alma. Eu consigo me esconder atrás de uma cocheira, mais caindo do que correndo e sinto algo quente melando minhas pernas. Acho melhor não olhar. Talvez seja sangue, talvez as fezes sujas de minhas tripas, ou talvez seja medo me fazendo mijar nas próprias calças. Não importa, não gosto de nenhuma das opções.
......Eu abro o tambor da arma e mantenho a cabeça baixa enquanto ponho mais chumbo no lugar. Um cavalo relincha do outro lado da rua quando é atingido por um disparo. Minha visão fica turva. Lembro do tapa na minha nuca enquanto tentava manter a arma reta, com as duas mãos. "Atira! Vai atira!" O cavalo da fazenda relinchando de agonia era um sombrio acompanhamento para a voz rouca de meu pai. "Atira, seu merda! Você não serve para nada mesmo! Vai morrer na merda sem nunca ser ninguém!" As palavras e os relinchos do cavalo percorreram minha pele, congelando meus nervos e deixando minha mão firme.
......A arma se engatilha em minhas mãos, sem que eu sequer pense a respeito disso. Sinto um toque quente lambendo o meu rosto, mas já não me importo. Minha coragem se pinta nos quatro estampidos secos que me cobrem os pensamentos. Depois disso, só existe um ar coberto de uma fumaça tão densa quanto o silêncio onde ela flutua. Eu espero a névoa se dissipar dos meus olhos e vejo um cavalo caído do outro lado da rua, ferido por um tiro, morto por três das minhas balas. A quarta bala terminou no fim da rua; no peito do homem morto, com a cara na merda.
Cowboy: Digs 'Coffin' Depper
Autor: Diego Guerra
TnTema: Faroeste
......Tudo cheira a bosta. Por um momento eu penso que a profecia de meu pai irá se realizar e eu vou morrer na merda. O sorriso se insinua pelos meus lábios sem que eu tenha forças para detê-lo. Uma mulher engole em seco enquanto se esconde atrás de cortinas. Cortinas seguram balas tanto quanto janelas seguram seus olhares. Eu vejo um sorriso em seus lábios e imagino como a minha vida poderia ter sido diferente. Bem, talvez não muito.
......Arrependo-me da distração tarde de mais. Ouço a arma engatilhada parte de segundos antes de ouvir um disparo. Uma bala já está no ar, outra logo segue seu caminho. Sinto algo queimando em minha mão e só ao olhar para baixo percebo que eu já disparei, mas não rápido o suficiente. Algo me acerta na barriga como um murro e eu perco a força das pernas. A voz de meu pai volta a trovejar sobre meu destino no esterco e eu arrumo coragem para não cair ainda. Alguma coisa assobia na minha orelha e eu imagino os índios, falando com o vento. Meu dedo aperta o gatilho novamente, três vezes antes de eu conseguir me lembrar do que estava acontecendo. O chão se levanta em explosões de poeira e fragmentos de pedra. O sino da igreja toca uma encomenda pela minha alma. Eu consigo me esconder atrás de uma cocheira, mais caindo do que correndo e sinto algo quente melando minhas pernas. Acho melhor não olhar. Talvez seja sangue, talvez as fezes sujas de minhas tripas, ou talvez seja medo me fazendo mijar nas próprias calças. Não importa, não gosto de nenhuma das opções.
......Eu abro o tambor da arma e mantenho a cabeça baixa enquanto ponho mais chumbo no lugar. Um cavalo relincha do outro lado da rua quando é atingido por um disparo. Minha visão fica turva. Lembro do tapa na minha nuca enquanto tentava manter a arma reta, com as duas mãos. "Atira! Vai atira!" O cavalo da fazenda relinchando de agonia era um sombrio acompanhamento para a voz rouca de meu pai. "Atira, seu merda! Você não serve para nada mesmo! Vai morrer na merda sem nunca ser ninguém!" As palavras e os relinchos do cavalo percorreram minha pele, congelando meus nervos e deixando minha mão firme.
......A arma se engatilha em minhas mãos, sem que eu sequer pense a respeito disso. Sinto um toque quente lambendo o meu rosto, mas já não me importo. Minha coragem se pinta nos quatro estampidos secos que me cobrem os pensamentos. Depois disso, só existe um ar coberto de uma fumaça tão densa quanto o silêncio onde ela flutua. Eu espero a névoa se dissipar dos meus olhos e vejo um cavalo caído do outro lado da rua, ferido por um tiro, morto por três das minhas balas. A quarta bala terminou no fim da rua; no peito do homem morto, com a cara na merda.
Cowboy: Digs 'Coffin' Depper
Autor: Diego Guerra
TnTema: Faroeste
Negror
......A nau cortou o mar da noite sem fazer nenhum ruído. Ondas eram partidas sob seu casco como uma lâmina. As velas haviam sido recolhidas e remos treinados para o silêncio escuso de seu ofício empurravam adiante como as muitas patas de um gigantesco inseto, caminhando sobre a água.
......No tombadilho o capitão sorria. A sua frente brilhavam fracas as poucas luzes da cidade, e o farol costeiro que atraiam o inseto venenoso. Em suas camas, as pessoas dormiam sem saber que seus olhos nunca mais se abririam. Quando o sol se levantasse, encontraria uma cidade em prantos, com homens agonizando e mulheres aos prantos. Não haviam grandes tesouros naquela cidade, a igreja, pelo que se lembrava, era uma velha construção de barro cozido. Seus habitantes viviam da pesca e da visita de baleeiros, mas não era época de se caçar baleias. A cidade, vivia uma tranqüilidade perturbada apenas pela preocupação pelo pão do dia seguinte.
......Porém haviam outros bens, que o atraiam até ali. Bens, que em nada tinham com ouro ou pedras preciosas. Aquele homem maldito jamais deveria ter lhe negado a mão de sua filha, mas agora era tarde. Quando a manhã amanhecer... cinqüenta homens voltarão ao navio com cintos desatados e sorrisos maldosos no rosto. E ele estaria lá para assistir o veneno de seu barco, escorrendo por sobre as camas.
Texto: Diego Guerra
Pirata: Digs 'Pena Negra'
TnTema: Piratas
......No tombadilho o capitão sorria. A sua frente brilhavam fracas as poucas luzes da cidade, e o farol costeiro que atraiam o inseto venenoso. Em suas camas, as pessoas dormiam sem saber que seus olhos nunca mais se abririam. Quando o sol se levantasse, encontraria uma cidade em prantos, com homens agonizando e mulheres aos prantos. Não haviam grandes tesouros naquela cidade, a igreja, pelo que se lembrava, era uma velha construção de barro cozido. Seus habitantes viviam da pesca e da visita de baleeiros, mas não era época de se caçar baleias. A cidade, vivia uma tranqüilidade perturbada apenas pela preocupação pelo pão do dia seguinte.
......Porém haviam outros bens, que o atraiam até ali. Bens, que em nada tinham com ouro ou pedras preciosas. Aquele homem maldito jamais deveria ter lhe negado a mão de sua filha, mas agora era tarde. Quando a manhã amanhecer... cinqüenta homens voltarão ao navio com cintos desatados e sorrisos maldosos no rosto. E ele estaria lá para assistir o veneno de seu barco, escorrendo por sobre as camas.
Texto: Diego Guerra
Pirata: Digs 'Pena Negra'
TnTema: Piratas
O aguardado fim
.......A nave parou subitamente, entre as nuvens e permaneceu flanando suavemente ao balançar dos ventos. Aquilo só era possível porquê apenas parte dela estava naquele mundo, outra parte estava muito além dele, além do que qualquer um naquele pequeno planeta azul poderia compreender. Dentro dela, Ashtar Sharon permanecia em silêncio.
– Falta pouco, agora! – sua voz era um sussurro cansado, centenas de anos em silêncio haviam consumido as palavras, mas a ocasião era séria demais para simples telepatia. Os outros tripulantes se colocaram ao lado do comandante enquanto uma imagem se projetava do chão da nave cortando uma escuridão tão profunda quanto todo espaço. A imagem era de uma brutalidade assustadora.
.......Entre prédios semi destruídos um grupo de homens trocava tiros contra outro grupo que marchava ao lado de um tanque de guerra. Explosões se sucediam por todos os lados, homens simplesmente desapareciam em meio a uma nuvem de fogo, fumaça e pedaços de carne. Alguns dos observadores viraram o rosto, mas Ashtar permaneceu onde estava, observando a tudo com uma impassibilidade triste. Recriminando-se por tudo o que não havia feito. Mas já havia feito muito.
– Todos estão a salvo? – a pergunta fora feita para si, mas isso não impediu um dos seus comandados de afirmar que sim, todos os que haviam sido iluminados tinham sido salvo. Exceto aqueles que tinham escolhido ficar. Ashtar já havia feito resgates como aquele outras vezes e sabia que os melhores sempre ficavam para perecer com os piores. Mas eles já estavam salvos, seriam levados dali para um estágio muito mais puro. Não eram esses que o preocupavam, mas já não havia nada que pudesse fazer.
– É agora! – A imagem da sala mostrou um grupo de mísseis sobre os céus, quase cruzando com outro grupo de mísseis, na direção contraria. Houve um silvo longo e fúnebre pelo ar. Na cidade em ruínas os disparos e explosões silenciaram enquanto olhos perplexos olhavam para o céu. Uma mulher agarrou uma criança, dois jovens se beijaram, um homem sofreu um infarto. Uma velha senhora teve uma crise de risos. Uma luz brilhante ofuscou os olhos de Ashtar com o golpe de bilhões de almas deixando seus corpos. A nave tripidou um pouco, pela energia que rasgava os universos. Ashtar chegou a temer ter estado perto demais. Mas não. No momento seguinte era tudo silencioso, como uma tumba. Ashtar balançou levemente a cabeça e sorriu para os seus companheiros.
– Vamos para casa. – Foram suas palavras. – A Terra já não existe mais. Enquanto a nave se afastava, Ashtar deu uma última olhada para trás, em busca daquele pequeno ponto azul que por algum tempo impressionou tanto os Homens.
Inspirando as palavras de Carl Sagan: "(...) Nós podemos explicar o azul-pálido desse pequeno mundo que conhecemos muito bem. Se um cientista alienígena, recém-chegado às imediações de nosso Sistema Solar, poderia fidedignamente inferir oceanos, nuvens e uma atmosfera espessa, já não é tão certo. Netuno, por exemplo, é azul, mas por razões inteiramente diferentes. Desse ponto distante de observação, a Terra talvez não apresentasse nenhum interesse especial.
......Para nós, no entanto, ela é diferente. Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, "superastros", "líderes supremos", todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol. A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica.
.......Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração desse ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os habitantes mal distinguíveis de algum outro canto, em seus freqüentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes. Nossas atitudes, nossa pretensa importância de que temos uma posição privilegiada no Universo, tudo isso é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida.
.......O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade, no meio de toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos. (...)" Mas não mais. Não mais.
Autor: Diego Guerra
“Quando eu era pequeno, tinha medo do fim do mundo e acreditava que um dia eu teria que lutar com alienígenas para sobreviver!”
Citação: Carl Sagan
TnTema: Sci-Fi
– Falta pouco, agora! – sua voz era um sussurro cansado, centenas de anos em silêncio haviam consumido as palavras, mas a ocasião era séria demais para simples telepatia. Os outros tripulantes se colocaram ao lado do comandante enquanto uma imagem se projetava do chão da nave cortando uma escuridão tão profunda quanto todo espaço. A imagem era de uma brutalidade assustadora.
.......Entre prédios semi destruídos um grupo de homens trocava tiros contra outro grupo que marchava ao lado de um tanque de guerra. Explosões se sucediam por todos os lados, homens simplesmente desapareciam em meio a uma nuvem de fogo, fumaça e pedaços de carne. Alguns dos observadores viraram o rosto, mas Ashtar permaneceu onde estava, observando a tudo com uma impassibilidade triste. Recriminando-se por tudo o que não havia feito. Mas já havia feito muito.
– Todos estão a salvo? – a pergunta fora feita para si, mas isso não impediu um dos seus comandados de afirmar que sim, todos os que haviam sido iluminados tinham sido salvo. Exceto aqueles que tinham escolhido ficar. Ashtar já havia feito resgates como aquele outras vezes e sabia que os melhores sempre ficavam para perecer com os piores. Mas eles já estavam salvos, seriam levados dali para um estágio muito mais puro. Não eram esses que o preocupavam, mas já não havia nada que pudesse fazer.
– É agora! – A imagem da sala mostrou um grupo de mísseis sobre os céus, quase cruzando com outro grupo de mísseis, na direção contraria. Houve um silvo longo e fúnebre pelo ar. Na cidade em ruínas os disparos e explosões silenciaram enquanto olhos perplexos olhavam para o céu. Uma mulher agarrou uma criança, dois jovens se beijaram, um homem sofreu um infarto. Uma velha senhora teve uma crise de risos. Uma luz brilhante ofuscou os olhos de Ashtar com o golpe de bilhões de almas deixando seus corpos. A nave tripidou um pouco, pela energia que rasgava os universos. Ashtar chegou a temer ter estado perto demais. Mas não. No momento seguinte era tudo silencioso, como uma tumba. Ashtar balançou levemente a cabeça e sorriu para os seus companheiros.
– Vamos para casa. – Foram suas palavras. – A Terra já não existe mais. Enquanto a nave se afastava, Ashtar deu uma última olhada para trás, em busca daquele pequeno ponto azul que por algum tempo impressionou tanto os Homens.
Inspirando as palavras de Carl Sagan: "(...) Nós podemos explicar o azul-pálido desse pequeno mundo que conhecemos muito bem. Se um cientista alienígena, recém-chegado às imediações de nosso Sistema Solar, poderia fidedignamente inferir oceanos, nuvens e uma atmosfera espessa, já não é tão certo. Netuno, por exemplo, é azul, mas por razões inteiramente diferentes. Desse ponto distante de observação, a Terra talvez não apresentasse nenhum interesse especial.
......Para nós, no entanto, ela é diferente. Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, "superastros", "líderes supremos", todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol. A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica.
.......Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração desse ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os habitantes mal distinguíveis de algum outro canto, em seus freqüentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes. Nossas atitudes, nossa pretensa importância de que temos uma posição privilegiada no Universo, tudo isso é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida.
.......O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade, no meio de toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos. (...)" Mas não mais. Não mais.
Autor: Diego Guerra
“Quando eu era pequeno, tinha medo do fim do mundo e acreditava que um dia eu teria que lutar com alienígenas para sobreviver!”
Citação: Carl Sagan
TnTema: Sci-Fi
Os últimos passos de um morto.
.........Esperava que o mundo estivesse coberto pela chuva. Mas não. A noite tinha uma lua clara e esperançosa no céu, com promessas de amanhã que não cabiam a ele. Esperava que seus pensamentos fossem confusos, restos de matéria cinza e morta escorrendo pelo seu queixo. Mas não. Havia uma imagem clara em sua mente, apontando-o como um farolete em direção a casa despontando a sua frente. Esperava que a morte levasse toda sua agonia. Mas não.
.........Seus pés se mexeram com dificuldade, com músculos putrefatos e tendões partidos que lhe emprestavam os movimentos de um marionete sem cordas visíveis. Tinha pressa, mas nenhum fôlego. Seus pulmões não passavam de um amontoado pegajoso de barro. Podia sentir os vermes se movendo, bocas minúsculas e cheias de dentes, mastigando e defecando o que encontrassem pela frente. Gemeria se ainda tivesse língua, mas através de lábios que não existiam mais, as palavras chocavam-se contra ossos descarnados e secos. Cobertos de pó e lembranças.
.........Ele enxergou o velho balanço, gemendo sob a brisa amistosa e a luz da cozinha recheada de sons de panela. Permitiu-se um momento de reflexão, sob a mangueira onde tantas tardes pousaram seus corpos. Com os olhos fixos nos galhos que escondiam-nos de Deus, autorizados aos piores pensamentos, aos mais impublicaveis desejos. A mão que lhe restava, era menos que uma garra decrépita onde pendiam três dedos que se agarraram a corda do balanço com uma humanidade que nem ele mesmo poderia reconhecer. Viu sombras na janela, um vulto feminino e só então percebeu o quanto estava cansado. A morte era só aquilo. Cansaço e decepção.
........Havia música tocando em algum lugar, mas ele não poderia mais ouví-la. Um arrepio em seus ossos, era a única coisa que denunciava a voz que gargalhava dentro da casa. A voz que tantas vezes disse que lhe amava. Ele se agitou, moveu-se rápido com os pés trôpegos, caindo e se levantando vezes sem conta, enquanto deixava para trás restos do que fora seu corpo. A luz da janela era como o túnel para o outro mundo, aquela luz que deveria ter arrancado sua alma do corpo em direção a outro lugar se ele não houvesse se recusado tanto a partir. Era mesma luz, brilhando ali, como a promessa de uma outra vida. Sentiu os ossos da perna se partindo e temeu jamais chegar até lá. Seu corpo morto e repleto de vermes tombou para frente esperando espatifar-se contra as flores plantadas sob o batente. Os dedos de sua mão se estenderam desesperados, se agarrando ao que quer que fosse. Tinha conseguido. O braço esforçou-se para ergue-lo até o batente da janela onde estava agarrado e ele percebeu que já não tinha pés, ou pernas. Um lodo esverdeado escorria dele, como o sangue que já não tinha. Mas a ele nada importava, havia conseguido. Tudo o que queria era uma visão.
........Seus olhos mortos demoraram a se acostumar com a luz da casa, depois a varreram de um lado ao outro, esbarrando em todos os objetos que havia deixado para trás. Seu álbum de casamento, as lembranças de lua de mel. Seu sorriso em papel fotográfico e molduras de madeira.Seu corpo nu, abraçado por outro, no tapete da sala.Esperava que todo sacrifício tivesse sua gratificação.Mas não. A Morte era apenas aquilo. Cansaço. Decepção.
Autor: Diego Guerra
TnTema: Zumbis
.........Seus pés se mexeram com dificuldade, com músculos putrefatos e tendões partidos que lhe emprestavam os movimentos de um marionete sem cordas visíveis. Tinha pressa, mas nenhum fôlego. Seus pulmões não passavam de um amontoado pegajoso de barro. Podia sentir os vermes se movendo, bocas minúsculas e cheias de dentes, mastigando e defecando o que encontrassem pela frente. Gemeria se ainda tivesse língua, mas através de lábios que não existiam mais, as palavras chocavam-se contra ossos descarnados e secos. Cobertos de pó e lembranças.
.........Ele enxergou o velho balanço, gemendo sob a brisa amistosa e a luz da cozinha recheada de sons de panela. Permitiu-se um momento de reflexão, sob a mangueira onde tantas tardes pousaram seus corpos. Com os olhos fixos nos galhos que escondiam-nos de Deus, autorizados aos piores pensamentos, aos mais impublicaveis desejos. A mão que lhe restava, era menos que uma garra decrépita onde pendiam três dedos que se agarraram a corda do balanço com uma humanidade que nem ele mesmo poderia reconhecer. Viu sombras na janela, um vulto feminino e só então percebeu o quanto estava cansado. A morte era só aquilo. Cansaço e decepção.
........Havia música tocando em algum lugar, mas ele não poderia mais ouví-la. Um arrepio em seus ossos, era a única coisa que denunciava a voz que gargalhava dentro da casa. A voz que tantas vezes disse que lhe amava. Ele se agitou, moveu-se rápido com os pés trôpegos, caindo e se levantando vezes sem conta, enquanto deixava para trás restos do que fora seu corpo. A luz da janela era como o túnel para o outro mundo, aquela luz que deveria ter arrancado sua alma do corpo em direção a outro lugar se ele não houvesse se recusado tanto a partir. Era mesma luz, brilhando ali, como a promessa de uma outra vida. Sentiu os ossos da perna se partindo e temeu jamais chegar até lá. Seu corpo morto e repleto de vermes tombou para frente esperando espatifar-se contra as flores plantadas sob o batente. Os dedos de sua mão se estenderam desesperados, se agarrando ao que quer que fosse. Tinha conseguido. O braço esforçou-se para ergue-lo até o batente da janela onde estava agarrado e ele percebeu que já não tinha pés, ou pernas. Um lodo esverdeado escorria dele, como o sangue que já não tinha. Mas a ele nada importava, havia conseguido. Tudo o que queria era uma visão.
........Seus olhos mortos demoraram a se acostumar com a luz da casa, depois a varreram de um lado ao outro, esbarrando em todos os objetos que havia deixado para trás. Seu álbum de casamento, as lembranças de lua de mel. Seu sorriso em papel fotográfico e molduras de madeira.Seu corpo nu, abraçado por outro, no tapete da sala.Esperava que todo sacrifício tivesse sua gratificação.Mas não. A Morte era apenas aquilo. Cansaço. Decepção.
Autor: Diego Guerra
TnTema: Zumbis
No Ar...
– Diego, quequevocêtáfazendoaiemcima?!
– Tô pensando mãe!
– Pensando no quê, menino de Deus?! Desce antes que você caia!
– Tenho que mandar uma história pro pessoal do TNTema e tô sem idéia.
– Meu filho! Já te falei que essa história de escritor não dá em nada, desce daí antes que você se machuque!
– Eu só queria esticar mais um pouquinho!
– Ah, moleque! Desce! O que você ta fazendo de pé!? Se segura, se segura! Aimeudeusdoceu ele vai cair!
– Queria só pegar um passarinho... OOooOoOo...
– Não quero olhar!
– ....
– Dona Miriam o que aconteceu?
– Ah, meu filho! Eu sabia que essa história de escrever ia acabar com ele um dia!
– Mas olha lá, dona Miriam, ele não caiu!
– Não caiu?
– Tô aqui mãe!
– Diego! Larga do rabo desse urubu e entra pra casa menino!
Autor: Diego Guerra
TnTema: Ar
– Tô pensando mãe!
– Pensando no quê, menino de Deus?! Desce antes que você caia!
– Tenho que mandar uma história pro pessoal do TNTema e tô sem idéia.
– Meu filho! Já te falei que essa história de escritor não dá em nada, desce daí antes que você se machuque!
– Eu só queria esticar mais um pouquinho!
– Ah, moleque! Desce! O que você ta fazendo de pé!? Se segura, se segura! Aimeudeusdoceu ele vai cair!
– Queria só pegar um passarinho... OOooOoOo...
– Não quero olhar!
– ....
– Dona Miriam o que aconteceu?
– Ah, meu filho! Eu sabia que essa história de escrever ia acabar com ele um dia!
– Mas olha lá, dona Miriam, ele não caiu!
– Não caiu?
– Tô aqui mãe!
– Diego! Larga do rabo desse urubu e entra pra casa menino!
Autor: Diego Guerra
TnTema: Ar
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