.....Ele podia ouvir os aplausos vindos da grande tenta fazendo tudo ao seu redor estremecer. Lucas ouvia as gargalhadas, ritmadas como um coro para a fanfarra da banda; podia imaginar a trapezista na corda bamba a segundos do salto mortal. O furar de tambores enquanto o público, agora em silêncio, torcia para que tudo desse certo. Os tambores gaguejando e tremulando. A trapezista no ar, nada entre ela e a morte, um salto cego que se sustenta na esperança de que havia feito os cálculos corretamente. As mulheres tampam os olhos, os homens disfarçam o próprio temor. Todos tomam ar, incluindo os tambores que silenciam.
.....Lucas ficou na pontinha do pé, como se fossem suas as mãos que tentavam alcançar o trapézio. As orelhas esticadas na janela, o coração toa mudo quanto tudo o mais; e de repente uma ovação alucinada inundando o mundo e garantindo a Lucas que tudo estava bem.
.....Seu pai entrou em casa. Lucas correu para a cama ao mesmo tempo em que a multidão voltava ao silêncio. Os pés agüeis pularam sobre o colchão e houve nova ovação da platéia. Ficou em silêncio, olhos fechados, tentava controlar a respiração. Os passos de seu pai dançavam pelo corredor esbarrando na cômoda ao lado da porta do banheiro. Seu pai xingou baixinho, pelo barulho inconveniente. Riu. Seguiu em frente. Parou trocando os pés perto de sua porta e testou a maçaneta, fazendo as dobradiças rangerem para frente e para trás. Lucas sentiu o cheiro do álcool vindo da porta. Não gostava quando o pai bebia, apesar de achar engraçado seu jeito desastrado. A porta do quarto fechou e os passos se perderam pelo corredor.
.....Lucas ouviu outra porta se abrindo, os passos lentos de seu pai tentando não fazer barulho. O taco solto no chão do quarto de sua mãe. UM “Sshh” beirando o riso, do seu pai. O colchão de mola rangendo enquanto dois golpes ocos batiam no chão, toc, toc.
Seu pai respirou fundo.
– Ele ficou te esperando a noite toda. – Sua mãe não parecia sonolenta. A voz era direta, com palavras que haviam sido planejadas durante horas, em silêncio, esperando a chance de ganhar o mundo.
– Tive um happy hour com o pessoal do escritório. Não deu pra sair antes.
– Você prometeu leva-lo ao circo.
– Levo amanhã.
– Ele esperou a semana toda para ver os trapezistas.
– Disse que levo amanhã, Marta!
Sua mãe ficou quieta. Fazia tanto silêncio quanto o segundo imediato ao trapezista alcançar a segurança. O colchão de mola fez barulho, houve um click do abajur sendo aceso.
Seu pai suspirou novamente.
– Você prometeu!
– Ele é cego, não perdeu nada!
Sua mãe engoliu um soluço, os minutos tornaram-se longos e ele ouviu a platéia aplaudindo, o vento soprava os sonos para longe, como se apagasse um sonho. Seu pai gaguejou qualquer coisa e ele ouviu um estalo alto seguido de um gemido. Pés descalços se afastaram do quarto, seu pai chamou sua mãe carinhosamente. A porta do seu quarto se abriu e se fechou rapidamente. Ele sentiu o perfume do creme de sua mãe e a cama estremecendo enquanto ela se deitava ao seu lado. Marta o abraçou com força. Lucas fingiu dormir. Lucas percebeu algo quente pingando sobre seu rosto.
– Tudo bem, amor. – Sua mãe sussurrou entre soluços. – Amanhã nós vamos ao circo.
Naquela noite Lucas sonhou com o trapézio, uma onda de gritos e uma maré de palmas.
Autor: Diego Guerra
TnTema: Circo
07 Outubro 2008
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